Aos 45 anos, entre os bastidores do poder e a emoção dos eventos, descobri que o meu maior luxo não custa caro.
O Teatro do Mundo Lá Fora
Quem me vê trabalhando nos finais de semana, eternizando casamentos e festas de 15 anos com a minha câmera, talvez não saiba que de segunda a sexta eu vivo em outro tabuleiro. Há 5 anos sou assessor de vice-prefeito. Convivo diariamente com o poder, com as vaidades, com discursos e com a engrenagem fria da política. É um mundo onde o futuro é uma aposta constante: o que vai acontecer na eleição de 2026? E em 2028? Quem vai subir? Quem vai cair?
Essa rotina leva a mente ao extremo. A política e, às vezes, até as estruturas religiosas que vemos por aí, parecem tratar as pessoas como números e interesses. Mas para mim, atrás da lente ou dentro do gabinete, pessoas são originais, honestas e vivem pelas suas famílias. Por isso, luto diariamente pela moderação, pelo resultado sincero e pelo "não" dito com honestidade. Tento manter os meus pés no chão em um mundo que vive de aparências.
A Fuga para a Infância
Mas vou te confessar uma coisa: esse ritmo cansa. Tem dias em que chego em casa, ligo o computador para editar e o cansaço mental é tão avassalador que eu preciso desligar a tela imediatamente e correr da sala.
Sabe para onde eu vou? Eu vou para a cama assistir ao jornal. E há pouco tempo, conversando comigo mesmo, entendi o porquê disso. Eu corro para lá tentando buscar as minhas origens. Lembro da minha infância, quando meu pai ligava a TV no Jornal Nacional e a casa inteira parava. Ficávamos todos sentados, quietos, em um silêncio sagrado, apenas para ver o pai prestar atenção e, no final, comentar o que achava.
Quando eu desligo o PC hoje, a minha mente não está só fugindo do trabalho; ela está buscando aquele silêncio da casa do meu pai. Aquela sensação de que, mesmo que o mundo lá fora esteja desabando, dentro do nosso lar estamos seguros.
O Valor do que é Simples
Eu vi o topo do poder na política. Vi prefeitos de quatro mandatos, outrora poderosos e cercados de gente, terminarem a vida caminhando sozinhos em uma igreja lotada, esquecidos pelo tempo. Ali eu entendi que o poder é uma ilusão se você não construir algo real.
O meu real é a minha família. Minha esposa há 21 anos e meus três filhos. Aos 45 anos, não tenho a ambição de trocar de carro ou de ostentar uma casa luxuosa. O meu foco está na transição: ensinar o corte do vídeo para os meus filhos de 17 e 13 anos, para que eles assumam o espaço deles, enquanto eu sigo no comando da fotografia.
Eu tenho um objetivo claro. Quero construir a nossa estabilidade financeira para, aí sim, colocar o pé na estrada. Eu não quero o luxo dos resorts cinco estrelas. O meu sonho é pegar o carro com a minha parceira de vida, sentir o frio das montanhas do Chile, tomar uma sopa na rua coberta em Gramado, comer uma pizza simples e tomar um bom vinho sabendo que a nossa base está segura.
A vida é curta demais para viver o roteiro dos outros ou para ficar preso na ansiedade do amanhã. O meu segundo tempo começou, e ele tem cheiro de estrada, silêncio de domingo e o abraço de quem construiu a vida com o próprio suor.